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Meu Pai

19/02/2021

Perdi meu pai duas vezes.

A primeira, quando ele saiu de casa.

Nos deixou. Nós deixou.

A inesquecível sensação de dor que aquela notícia causou-me.

Dor profunda.

Um torturante, penoso e pungente nó na garganta, que se estendia até os ouvidos, desorientando-me por instantes.

Sua presença não existia mais.

Seu lugar à mesa, frio, vazio, silencioso.

Seu armário, ocupando-se com qualquer bugiganga.

Seu cheiro, suas piadas, brincadeiras e bom humor presentes, apenas, nos meus genes.

A dor de ver ir embora, um de seus alicerces.

A insegurança de ficar órfã, desamparada, desprotegida, abandonada.

De precisar de um conselho e não te-lo.

A mão, que um dia me levou aos mais belos caminhos e sonhos, hoje guia outras mãos.

Meu pai, que foi embora tão cedo, aos meus 18 e aos meus 36.

E, na segunda vez que o perdi, vi o brilho da vida ir embora de seus olhos, o vívido de sua pele deixando seu corpo, o corado de seu rosto, empalidecendo.

Tudo tão repentina e simplesmente, na sala da minha casa.

Seu coração não dava mais sinal de que ainda poderia amar.

E, como que numa despedida, suas últimas palavras foram:

— Dani, desculpe-me!